terça-feira, 30 de julho de 2013

Para onde eu fui?

 Vou lhes contar uma história. Pode ser bonita, ou não. Depende do que você achar.
 Este conto se passa numa rua chamada Tratonni. Nome esquisito não? Pois é.
 Uma rua apertada.
 Em Tratonni, Madie tinha aulas de piano. A garota de 14 anos já estava se dando bem nas aulas que seus pais propuseram que fizesse, dois anos antes.
 - Excelente, Madie! - disse Emilly, sua professora. - Se tocar tão bem quanto hoje no concurso, creio que ganhará o prêmio de primeiro lugar. Ah! Já são 11:00. É melhor você ir agora, seus pais devem estar esperando você em casa. Estude bastante, a audição é semana que vem, hein?
 - Sim, é claro! Vou me esforçar bastante, preciso ganhar esse prêmio.
 - Seja confiante, claro. Mas não orgulhosa.
 "Não sei mais quantas vezes vou ter que ouvir essa frase" - pensou Madie.
 - Vou ter que ir, professora, até mais.
 - Até.
 E Madie foi para casa. Tomou um ônibus (nem todas as pessoa pegam táxi direto, sabia?) e chegou em sua casa, ao meio - dia.
 Madie era uma garota adorável. Gentil e delicada... Todos a adoravam. Só eu, que conto a história, sei o que há de acontecer. Uma tragédia.
 - Corra para o  banho! - disse sua mãe. - Você chegou toda suja de lama! Onde fez isso? - Apontou Lúcia para uma pata de cachorro, bem grande, na camiseta branca e (antes limpa) suja de Madie.
 - Não acredito! Spike pulou em mim quando cheguei.
 - Sabia que sabão custa dinheiro, seu bobão? - disse a mulher, que acariciava o cachorro e sorria. - Mas vá tomar banho. O almoço ficará pronto daqui a pouco.
 Madie subiu, quase correndo, para o andar de cima. Tomou a ducha e atualizou os deveres de casa.
 Sua escola - deveria ter dito - era tudo junto. Todas as matérias do seu ano mais Piano. De noite fazia aulas de dança.
 A comida estava gostosa. Filé de frango, fritas, salada e arroz. Quem recusaria um almoço feito exclusivamente por Dona Lúcia?
 Logo a tarde se transformou em noite.
 "Mais aulas" - pensou Madie.
 As sete em ponto saiu de casa, mochila na mão e coragem na cabeça. Tomou mais um ônibus, o segundo do dia, e foi em rumo à escola que estudava.
 Fez as aulas de dança, e se saiu horrível (em alguma coisa ela tem que ser ruim, certo?).
 Em geral ela não era tão ruim em dança, mas aquele dia tinha sido péssimo. Algo estava pregado em sua cabeça, ela não sabia o que. Só sabia que era uma sensação esquisita, um frio na barriga. Uma coisa que ia e vinha, que dava medo.
 Madie já não estava com vontade de voltar. Sentia que algo iria acontecer, mas era uma mensagem discreta. Quase não dava para ser notada.
 Saiu da escola devagar. Aprendeu a confiar em sinais, e aquele era um. Com certeza.
 Pegou mais rápido possível o ônibus que a levava para casa. Já eram 21:00 e a sensação aumentava, de pouco em pouco.
 De repente o motorista parou. Um passageiro, um homem, perguntou à ele o motivo da parada repentina.
 - O trânsito está muito grande, vamos demorar para chegar.
"Só o que me faltava!" - pensava ela.
 Finalmente o trânsito deu uma aliviada e o ônibus pôde prosseguir. Ela chegou na porta de casa faltando um minuto para as dez da noite.
 Foi aí que a vigésima segunda badalada soou. 22:00.
 Tudo ficou branco, nada podia ser enxergado. Pelo menos para Madie.
 Na rua deserta, uma garota caída. Só se ouviam os latidos frenéticos de Spike.

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